sexta-feira, 5 de junho de 2009

Último Tigre

Não é o de Blake,em chamas
nem o que entreviu Borges
através das barras,talvez até
impressas no pêlo,temperando
o ouro do ataque e do remanso
interrompido pelas tiras de sombra
indo e vindo,entre o mel e a fera.
Mas o que sobrou na Ásia ou África
-fogueira sozinha se extinguindo
em sua fúria e instinto sem a mão
que contorne a ferocidade da garra
e do olhar extremo,ou a lembrança
do seu nobre metal aceso,sol aberto
mesmo dentro da cegueira,agora
cada vez mais riscado e escurecido
pelas linhas do grafite e do carvão.

Armando Freitas Filho

terça-feira, 19 de maio de 2009

Canoeiro

leva-me, canoeiro, para além da curva do rio,
que seja a tua canoa um quadro sem mar.
desenha-me nas sombras e nos mistérios
da sofreguidão das ondas, do acender
das sílabas, da sede que busca as vinhas,
do ardor que chega à praia e funda instantes
densos, na preamar.
cuida da minha alma, pega-a no colo,
toca meu corpo sem palavras, faz-me feliz
com lágrimas, para que eu não esqueça
do gosto da água temperada com sal.
lava-me de todo o simbólico e do imaginário
que marca o real, mostra-me o ultra-secreto
desse lugar. que seja uma carícia quente
na água da vida, o teu remar; que seja leve
o balanço e que, numa dádiva silenciosa
- em reverência -
o estado da arte sorva a saudade
e sugue de nossos lábios o poema.

Sonia Regina

Paraty, 21.4.06

segunda-feira, 16 de março de 2009

EL GRAN OCEÁNO

SI de tus dones y de tus destrucciones, Océano
a mis manos
pudiera destinar una medida, una fruta, un fermento,
escogería tu reposo distante, las líneas de tu acero,
tu extensión vigilada por el aire y la noche,
y la energía de tu idioma blanco
que destroza y derriba sus columnas
en su propia pureza demolida.

No es la última ola con su salado peso
la que tritura costas y produce
la paz de arena que rodea el mundo:
es el central volumen de la fuerza,
la potencia extendida de las aguas,
la inmóvil soledad llena de vidas.
Tiempo, tal vez, o copa acumulada
de todo movimiento, unidad pura
que no selló la muerte, verde víscera
de la totalidad abrasadora.

Del brazo sumergido que levanta una gota
no queda sino un beso de la sal. De los
cuerpos
del hombre en tus orillas una húmeda
fragancia
de flor mojada permanece. Tu energía
parece resbalar sin ser gastada,
parece regresar a su reposo.

La ola que desprendes,
arco de identidad, pluma estrellada,
cuando se despeñó fue sólo espuma,
y regresó a nacer sin consumirse.

Toda tu fuerza vuelve a ser origen.
Sólo entregas despojos triturados,
cáscaras que apartó tu cargamento,
lo que expulsó la acción de tu abundancia,
todo lo que dejó de ser racimo.

Tu estatua está extendida más allá de las olas.

Viviente y ordenada como el pecho y el manto
de un solo ser y sus respiraciones,
en la materia de la luz izadas,
llanuras levantadas por las olas,
forman la piel desnuda del planeta.
Llenas tu propio ser con tu substancia.
Colmas la curvatura del silencio.
Con tu sal y tu miel tiembla la copa,
la cavidad universal del agua,
y nada falta en ti como en el cráter
desollado, en el vaso cerril:
cumbres vacías, cicatrices, señales
que vigilan el aire mutilado.


Tus pétalos palpitan contra el mundo,
tiemblan tus cereales submarinos,
las suaves ovas cuelgan su amenaza,
navegan y pululan las escuelas,
y sólo sube al hilo de las redes
el relámpago muerto de la escama,
un milímetro herido en la distancia
de tus totalidades cristalinas.

Pablo Neruda - Canto General

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

EM TODO LUGAR E EM PARTE ALGUMA

"e no entanto há também o canto do mar - aquele grito constante , constantemente um grito que não era nosso" wallace stevens - poeta americano

todas as eras a bordo de um barco.
eu não via o desenho do território .os navios .ninguém via.desde os franceses embora sempre houvesse uma estória sobre navios ancorados pela região em algum período remoto,mesmo assim,eu não via .

isso reforça a idéia de que esse lugar talvez não tenha existido para o mundo .
Para um sujeito continental então..



Lembro que estamos ancorados, fixados na solo .Nas grandes cidades portuárias,o chão do horizonte, a platitude é que vem até nós .por isso o porto .por isso a cidade do porto , buenos aires, Rio .por isso a espera.
Por que os homens escolheram a terra?




No Mar vamos ao encontro do tempo .Se "no aqui" hace sol ,o navegar por algumas milhas marinhas nos leva em poucas horas aonde a chuva está .A casa da chuva.Eu a visito.cobrimos o barco com lona azul, cobrimos nossos corpos com casacos.A fumaça do diesel tempera o cheiro do mundo. o barco nos leva para o que existe antes de nós .

O ponto de fuga guarda o instante .o instante não vem . o instante é .estamos temperados de instante e diesel .instante aqui é sol . é sal.é labirinto de mangues . é caranguejo.é pesca.visitamos o instante.agora é sério, isso aqui nunca existiu.


quando o barqueiro dá liga ao motor , o povoado não fica para trás . ele desaparece . é como se os pequenos povoados que deixamos jamais houvessem existido .é como se naqueles povoados onde chegamos jamais tivesse ocorrido alguma espécie de visita ou descoberta.
eu fico com a impressão que o passado não existe o futuro já se sabe, também não.estou impresso numa constante despedida.essa febre é causa.o barco desliga o motor.ficamos em silêncio.não é preciso preencher a vida com mais nada.as conversas perdem o sentido.você fica dentro do Mar , da ondulação . cada um de nós mira o olhar para uma abertura oceânica, para um plano particular da memória.cada um de nós é um ser muito inquieto mesmo quando deixamos de mover qualquer parte do corpo.o queixo por exemplo.mesmo quando deixamos de ler jornais ou acessar emails .



Veja : o silêncio que a música deixa no fim .




O continente segue desdobrando.Estamos no útero de um barco . resguardados de destino.as linhas-ilhas se confundem e dentro das linhas ,leitos navegáveis e uma vida levada em pequenos vilarejos sobrepostos na estória da eternidade, da solidão.

adiante é a africa.acima retalhos de cor .telhados coloridos.sílabas solares.

Ouvi dizer que o barco vem amanhã .Viria hoje mas a maré está baixa .
Todas as horas e na blusa de 3 dias uma espera,uma umidade.as bananas estão passando do ponto.tudo é a próxima viagem .descansamos por cima do cansaço.debaixo de insetos .eu vou me deixando em camadas.é uma viagem bastante barroca .de acumulações.
você chega .o barco chega com o novo, com mercadorias , com o querosene e o diesel para o gerador .todas as horas. as pessoas esperam algo de você .querem notícias dos mundos exteriores.eu não tenho nada a oferecer a eles que não seja o meu jeito de ser quieto.
chegamos . sempre a chegar.
os meninos canoeiros deslizam sobre águas e vem buscar as malas .estamos a uns 20 metros de lama do chão firme .os meninos canoeiros movem a pequena embarcação já como se ela fizesse parte de seus corpos mesmos .intimidade orgânica mimesis..
rápidos num desatino e eles já se vão na curva esquecida dos manguezais.um outro desatino e já naveguam de volta , sorriso vadio zombando levemente de nossa falta , falta de saberes para com o lugar.uma alegria sem freios pela cor que o estrangeiro pinta ,pelo quereres que brota de nossaS caras famintas e sujas .
um descuido e os meninos que até um tanto atrás prozeavam da canoa beirando a proa do barco que nos navegua ,e já se vão como dois riscos compridos e negros já bem amigos da distância, engolidos pela noite.
na margem.somos as visitas .somos as horas .o coraçao deles está aberto.comida farta .lenha.todas as horas segredos de familia .teatro japonês. jovens que foram embora.hiato.velhos e criancas.alcoolismo.gestos cifrados.peixe fresco , cagada no mato .farra-alegria-música.centenas de baratas .ar fresco. chuva miuda.
primeira manhã. os garotos a beira no canal limpam as peças.peças de trabalho.cada mão num vértice . rede .cada qual faz o saber.cada qual sabe o fazer. o saber que conheceram vendo seus pais no recorrente cerco aos bagres, pacas e tatus .Cada peça de labor da caça ,da pesca como objetos de precisão .objetos musicais.

a rabeca cria uma i-margem .cria um tom sonhador .invento mitos, personagens brasileiros encantados.nessa floresta de goethe , nessa floresta brasileira ,eu sonhei o sonho de uma rabeca anoitecida .rabecas lascadas de arquitetura em sombras . seu som oferece espaço ao romantismo ,ao romantismo dos primos, ao encontro .Um teatro que faz o amor mesmo com poucas peças.

peças : rede : peças : pequenas safadezas.

está tudo dentro do mundo.o nome do lugar é "aqui". limpam as redes.dobram a rede .re-dobram o fim do dia na lâmina do tempo. o mar é uma bacia homôgenea .o mar é uma peça .um braço bravo da coisa atlântica que se escuta e não se vê.as ondas . a arte de não mostrar.tudo que nao se mostra eu gosto.a natureza nao mostra tudo.a floresta não se mostra .ao redor ela se expressa enquanto signo mas sem revelar .no fundo ela é um espelho .tudo que a vida instrumental e quotidiana nos leva , nos furta a natureza está ali para nos factuar.os mitos fundadores do desejo , do perigo, da sedução.
há 200 anos esse Brasil profundo na regiao de Ariri e Abacateiro no sul do São Paulo , ao norte do Paraná , devia ser muito parecido como que o que vejo agora.mangue. montanhas.mar aberto nas redondezas.
Cômpor este quadro a-histórico .ao entardecer. dirigir-se a margem diante de um céu instável , diante de um céu de pollock..pôr-se ali.fazer-se parte dali.vadio.ao lado de cães tristes ,mas uma tristeza boa .
os garotos deixam um sorriso no canto do vento , na quebrada do desenho .o Giovani sorri para mim .ele mergulha na água silenciosa e escura e bota os olhos solares para fora enquanto o sol mesmo se põe..olhos de jacaré.as crianças beiram qualquer coisa .o geovani e suas duas gramas de idade.o mar , conversas , sonos, preguiça , comidas, sons de rádio .
as crianças daqui nomeiam o Ser da maneira que lhes convém .

O humor das raizes aéreas que margeiam a região.tobi é um cachorro que ri sozinho.a irmã de geaovani ri .O riso dela tem concordância com borboletas.as mulheres acenam timidamente ,beijam sem encostar o rosto mas elas querem .
Olham os homens estrangeiros de longe.longe dos olhos dos maridos,
Seu Geraldo nos guarda .ele é o patriarca.ele tece rabeca do interior de seu espirito . um poeta-músico.seu olho está voltado para o humanismo . me deparo com um homem que é um sábio .sábio :aquele que compreende que não sabe tudo.
Com o seu geraldo ,retorno a um homem com poder de construir.retorno a um naturante que está em nós.

mas há ai um jogo.ele joga.nada é fácil .fácil não é com ele.tem perfeição nele não. seu geraldo não fala com a sua mulher .conta-se que foi buscá-la na cidade .a mulher havia fugido com outro.
hoje ela fica a espreita mas não submissa . ela é forte .um dia ela ainda sai dali , de seu labirinto sentimental.seus cabelos devem fazer as trilhas do passado.ela cuidou dos filhos ,cozinhou para eles, os viu crescer e irem embora para a cidade grande exatamente de onde teve que voltar.Ir embora é um gesto misterioso no Aqui.

De manhã a luz é do fogo.de dia a luz é do sol.parece óbvio não?voce vai enxergar .vc vai enxergar ?em enxerguei ele nos abraços.eu enxerguei ele naquilo que ele gosta de fazer:equilibrar o barco com as cordas.antes daqui eu estava já distante de entender o volume dos dias.

e depois ? seu geraldo vem com as estórias.impressões originais sobre a aventura humana.ele sai de fininho e vai dormir.colchão no chãO.diz que parou com a chachaça mas toma .é ligeiro no copo .tem muita coisa aqui que acorda solidão.
sua presença corta a noite.a prosa como instrumento de conhecimento. diz a hora de parar .apaga o lampião.dá boas vindas ao cAnsaço.ensina com o olhar .tem muita coisa aqui que acorda solidão.
gaivota,rasga em vôo exato, compacto .vira pato.compete com a precisão.compete não , faz par.ela acompanha a última vida do peixe que irá comer . ela segue o cardume no percurso sinuoso de cima ,e traça um risco , reto em direção ao resultado da equação , ao peixe .ela revela a morte pro peixe .e o peixe não sabe que seu desespero antecipado ajuda a escrever no mundo a paixão inconsciente que os seres vivos nutrem pelos segundos.
nós animais ,não sabemos que no intervalo entre vida e morte é que a solidao acorda.
acordei já na auto estrada de volta. aquelas vilas existiram?
fez-se o tempo. fez-se.
fazia tempo que eu não dava adeus acenando com as mãos para as pessoas que ficam .fazia tempo que eu não ficava mesmo tendo ido embora.
xxxxxxxxxxxxxxx
"Demos adeus um ao outro junto à montanha,/Quando o dia se aproximou do crepúsculo, fechei o portão de madeira ./No próximo ano , na primavera , novamente a relva será verde./Mas meu nobre amigo voltará?"Wang Wei SEC VIII Dinastia Tang
xxxxxxxxxxxxxxxxx
A única forma de estabelecer um jogo crível com o tempo é deixar-se nos lugares por onde se passa . a única maneira é pensarmos que podemos chegar no futuro como se fosse a primeira vez .
xxxxxxxxxxxxxxx
"é o instante , esse pássaro que está em toda parte e em nenhuma .Queremos pegá-lo vivo,mas abre as asas e desvanece,transformado em um punhado de sílabas.Fiacamos de mãos vazias.Então as portas da percepção se entreabrem e aparece o outro tempo , o verdadeiro,o que buscávamos sem sabê-lo : o presente , a presença"Octavio Paz
* fotos de antonia moura .

Por Gwazz
Postado originalmente no blog http://gwazz.blogspot.com/2008/12/em-todo-lugar-e-em-parte-alguma.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

NOVO

Em mim
Tudo diferente
De dentro em diante,
mente.
Pra fora,
chão.

INDIFERENTEMENTE

De longe vejo passar no rio um navio....
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimir desolação com isto...
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença da metafísica...
Rio abaixo até a realidade do mar.

Alberto Caeiro - Poemas Inconjuntos
AMOR MEU, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.

Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.

Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,

e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio
só muda de terras e de lábios.


Pablo Neruda - Cem sonetos de Amor

AUSÊNCIA

"Nem a poesia, amor
Na sua ausência quis me receber"

Vinícius de Morais/ Francis Hime

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

OUTRO MAR



Poesia minha
ligação para o universo
Teu mar continuará lá
batendo nas pedras e quebrando na praia
Iluminando o verão,
me lavando no outono,
cultivando no inverno

Águas divinas
minha proteção
nossa natureza nos une
mesmo que o coração não cante
e o sol não queime

E agora quando tudo morre
Renasço em flores
Lanço meu olhar
Meu caminhar
A todo mar

Carrego a única dor
do porquê
De uma só maré
De uma só remada
De uma só espiada
Tuas águas percorrer.

O caçador de esmeraldas

Verde que te quiero oro

Bandeiras removendo a terra
Esmeralda que aguarda agora
No riacho além de Tordesilhas.

É...
Fernão se apaixonou como um selvagem
Pela sereia do sertão, na água.
Imagem virgem,
Miragem esverdeada ao sol.

No mel das abelhas e nos frutos
O gosto dela, a febre da paixão
Fernão se esmerava na conquista
De Esmeralda, inferno de Fernão.

E um dia...
Num fusca duas portas, dois amantes:
Fernão louco, Esmeralda desvairada
O enleio dos delirantes
No Recreio dos Bandeirantes.

João Bosco/ Cláudio Tolomei / Aldir Blanc

O Caçador de Esmeraldas

I

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
- Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.

Ah! quem te vira assim, no alvorecer da vida,
Bruta Pátria, no berço, entre as selvas dormida,
No virginal pudor das primitivas eras,
Quando, aos beijos do sol, mal compreendendo o anseio
Do mundo por nascer que trazias no seio,
Reboavas ao tropel dos índios e das feras!

Já lá fora, da ourela azul das enseadas,
Das angras verdes, onde as águas repousadas
Vêm, borbulhando, à flor dos cachopos cantar;
Das abras e da foz dos tumultuosos rios,
Tomadas de pavor, dando contra os baixios,
As pirogas dos teus fugiam pelo mar...

De longe, ao duro vento opondo as largas velas,
Bailando ao furacão, vinham as caravelas,
Entre os uivos do mar e o silêncio dos astros;
E tu, do litoral, de rojo nas areias,
Vias o Oceano arfar, vias as ondas cheias
De uma palpitação de proas e de mastros.

Pelo deserto imenso e líquido, os penhascos
Feriam-nas em vão, roíam-lhes os cascos...
A quantas, quanta vez, rodando aos ventos maus,
O primeiro pegão, como a baixéis, quebrava!
E lá iam, no alvor da espumarada brava,
Despojos da ambição, cadáveres de naus.

Outras vinham, na febre heróica da conquista!
E quando, de entre os véus das neblinas, à vista
Dos nautas fulgurava o teu verde sorriso,
Os seus olhos, ó Pátria, enchiam-se de pranto:
Era como se, erguendo a ponta do teu manto,
Vissem, à beira d'água, abrir-se o Paraíso!

Mais numerosa, mais audaz, de dia em dia,
Engrossava a invasão. Como a enchente bravia,
Que sobre as terras, palmo a palmo, abre o lençol
Da água devastadora, - os brancos avançavam:
E os teus filhos de bronze ante eles recuavam,
Como a sombra recua ante a invasão do sol.

Já nas faldas da serra apinhavam-se aldeias;
Levantava-se a cruz sobre as alvas areias,
Onde, ao brando mover dos leques das juçaras,
Vivera e progredira a tua gente forte.
Soprara a destruição, como um vento de morte,
Desterrando os pajés, abatendo as caiçaras.

Mas além, por detrás das broncas serranias,
Na cerrada região das florestas sombrias,
Cujos troncos, rompendo as lianas e os cipós,
Alastravam no céu léguas de rama escura;
Nos matagais, em cuja horrível espessura
Só corria a anta leve e uivava a onça feroz:

Além da áspera brenha, onde as tribos errantes
À sombra maternal das árvores gigantes
Acampavam; além das sossegadas águas
Das lagoas, dormindo entre aningais floridos;
Dos rios, acachoando em quedas e bramidos,
Mordendo os alcantis, roncando pelas fráguas;

- Aí, não ia ecoar o estrupido da luta.
E, no seio nutriz da natureza bruta,
Resguardava o pudor teu verde coração!
Ah! quem te vira assim, entre as selvas sonhando,
Quando a bandeira entrou pelo teu seio, quando
Fernão Dias Pais Leme invadiu o sertão!
II
Para o norte inclinando a lombada brumosa,
Entre os nateiros jaz a serra misteriosa;
A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas,
E águas crespas, galgando abismos e barrancos
Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos
Em cujos socavões dormem as esmeraldas.


Verde sonho!... é a jornada ao país da Loucura!
Quantas bandeiras já, pela mesma aventura
Levadas, em tropel, na ânsia de enriquecer!
Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada
Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada,
Que vêm, a uivar de fome, as onças remexer.

Que importa o desamparo em meio do deserto,
E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto
De terror em terror, lutando braço a braço
Com a inclemência do céu e a dureza da sorte?
Serra bruta! dar-lhe-ás, antes de dar-lhe a morte,
As pedras de Cortez, que escondes no regaço!

E sete anos, de fio em fio destramando
O mistério, de passo em passo penetrando
O verde arcano, foi o bandeirante audaz.
- Marcha horrenda! derrota implacável e calma,
Sem uma hora de amor, estrangulando na alma
Toda a recordação do que ficava atrás!

A cada volta, a Morte, afiando o olhar faminto,
Incansável no ardil, rondando o labirinto
Em que às tontas errava a bandeira nas matas,
Cercando-a com o crescer dos rios iracundos,
Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos,
Onde vinham ruir com fragor as cascatas.

Aqui, tapando o espaço, entrelaçando as grenhas
Em negros paredões, levantavam-se as brenhas,
Cuja muralha, em vão, sem a poder dobrar,
Vinham acometer os temporais, aos roncos;
E os machados, de sol a sol mordendo os troncos,
Contra esse adarve bruto em vão rodavam no ar.

Dentro, no frio horror das balseiras escuras,
Viscosas e oscilando, úmidas colgaduras
Pendiam de cipós na escuridão noturna;
E um mundo de reptis silvava no negrume;
Cada folha pisada exalava um queixume,
E uma pupila má chispava em cada furna.

Depois, nos chapadões, o rude acampamento:
As barracas, voando em frangalhos ao vento,
Ao granizo, à invernada, à chuva, ao temporal.
E quantos deles, nus, sequiosos, no abandono,
Iam ficando atrás, no derradeiro sono,
Sem chegar ao sopé da colina fatal!

Que importava? Ao clarear da manhã, a companha
Buscava no horizonte o perfil da montanha...
Quando apareceria enfim, vergando a espalda,
Desenhada no céu entre as neblinas claras,
A grande serra, mie das esmeraldas raras,
Verde e faiscante como uma grande esmeralda?

Avante! e os aguaçais seguiam-se às florestas...
Vinham os lamarões, as leziras funestas,
De água paralisada e decomposta ao sol,
Em cuja face, como um bando de fantasmas,
Erravam dia e noite as febres e os miasmas,
Numa ronda letal sobre o podre lençol.

Agora, o áspero morro, os caminhos fragosos.
Leve, de quando em quando, entre os troncos nodosos
Passa um plúmeo cocar, como uma ave que voa...
Uma frecha, subtil, silva e zarguncha... É a guerra!
São os índios! Retumba o eco da bruta serra
Ao tropel... E o estridor da batalha reboa.

Depois, os ribeirões, nas levadas, transpondo
As ribas, rebramando, e de estrondo em estrondo
Inchando em macaréus o seio destruidor,
E desenraizando os troncos seculares,
No esto da aluvão estremecendo os ares,
E indo torvos rolar nos vales com fragor...

Sete anos! combatendo índios, febres, paludes,
Feras, reptis, - contendo os sertanejos rudes,
Dominando o furor da amotinada escolta...
Sete anos!. .. E ei-lo de volta, enfim, com o seu tesouro!
Com que amor, contra o peito, a sacola de couro
Aperta, a transbordar de pedras verdes! - volta...

Mas num desvio da mata, uma tarde, ao sol posto,
Pára. Um frio livor se lhe espalha no rosto...
E a febre! O Vencedor não passará dali!
Na terra que venceu há de cair vencido:
E a febre: é a morte! E o Herói, trôpego e envelhecido,
Roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...
III
Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde.
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma solidão e na mesma hora triste,
À agonia do herói e à agonia da tarde.

Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.
Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras
Uivam nas lapas. Desce a noite, como um véu...
Pálido, no palor da luz, o sertanejo
Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.
- Fernão Dias Pais Leme agoniza, e olha o céu.

Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida
Em surtos de paixão e febre repartida,
Toda, num só olhar, devorando as estrelas!
Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,
- Que as implora, que bebe a sua luz tranqüila,
Que morre... e nunca mais, nunca mais há de vê-las!

Ei-las todas, enchendo o céu, de canto a canto.
Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,
Tanta constelação pela planície azul!
Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto,
Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto
Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!

Noites de outrora!... Enquanto a bandeira dormia
Exausta, e áspero o vento em derredor zunia,
E a voz do noitibó soava como um agouro,
- Quantas vezes Fernão, do cabeço de um monte,
Via lenta subir do fundo do horizonte
A clara procissão dessas bandeiras de ouro!

Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens
Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!
Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus
Ressoantes de amor! outonos benfeitores!
Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!
Fernão Dias Pais Leme espera a morte... Adeus!

O Sertanista ousado agoniza, sozinho.
Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;
E com a roupa de couro em farrapos, deitado,
Com a garganta afogada em uivos, ululante,
Entre os troncos da brenha hirsuta, - o Bandeirante
Jaz por terra, à feição de um tronco derribado...

E o delírio começa. A mio, que a febre agita,
Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,
Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chio:
Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,
Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,
Como para o enterrar dentro do coração.

Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso!
Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço
De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!
Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo,
Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,
Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!

E foi para morrer de cansaço e de fome,
Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,
Te dê uma oração e um punhado de cal,
- Que tantos corações calcaste sob os passos,
E na alma da mulher que te estendia os braços
Sem piedade lançaste um veneno mortal!

E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;
Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...
Mas, agora, um dano ilumina-lhe a face:
E essa face cavada e magra, que a tortura
Da fome e as privações maceraram, - fulgura,
Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse.
IV
Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso:
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
- E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Pais Leme estira os braços no ar.

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...


E é uma ressurreição! O corpo se levanta:
Nos olhos, já sem luz, a vida exsurge e canta!
E esse destroço humano, esse pouco de pó
Contra a destruição se aferra à vida, e luta,
E treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta
A voz, que na solidão só ele escuta, - só:

"Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,
Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
Que importa? dorme em paz, que o teu labor é findo!
Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
As tuas povoações se estenderão fulgindo!

Quando do acampamento o bando peregrino
Saia, antemanhã, ao sabor do destino,
Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor,
- No cômoro de terra, em que teu pé poisara,
Os colmados de palha aprumavam-se, e clara
A luz de uma clareira espancava o arredor.

Nesse louco vagar, nessa marcha perdida,
Tu foste, como o sol, uma fonte de vida:
Cada passada tua era um caminho aberto!
Cada pouso mudado, uma nova conquista!
E enquanto ias, sonhando o teu sonho egoísta,
Teu pé, como o de um deus, fecundava o deserto!

Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
Teu nome rolará no largo choro triste
Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!
Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares
Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!"



Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Pais Leme os olhos cerra. E morre.

Olavo Bilac

Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/O_Ca%C3%A7ador_de_Esmeraldas"

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sagrado



Sagrado mar
Santificado
Divino amoroso em extensão

Venera-te um marinheiro
noturno celeste manguezal
ausente
repleto de ar

Presenteia
seduz
espelho lunar

Tua bondade inspirada
cheiro de terra e raiz permanente
Suspira o ramo verde

De algas verdes iluminado
percorre o horizonte encantado
A última folha cai na noturna viagem
Fulgura a essência da solidão desfrutar

ILHA DOS VALADARES - Paranaguá - PR

terça-feira, 19 de agosto de 2008

MARINO, um homem do mar.

Durante uma das aulas da Pós-Graduação eu me deparei com uma incrível narrativa de vida. A história de Marino Streck revela a relação íntima que os pescadores tem com o mar. Há três anos que eu percorro esse litoral caiçara sempre encontrando Marinos com suas histórias de paixão e respeito pelo oceano. Gosto de sentar para ouvir histórias de pescadores, sempre lúdicas com tanta vida! Gostei muito dessa narrativa que se encontra no livro "Jornalistas Literários: Narrativas da Vida Real por Novos Autores Brasileiros", da editora Summus.
Tem um trecho que eu anotei que mostra um pouco desse sentimento, copiei e repasso pra compartilhar com vocês!
Boa Leitura!

"Agora são 17h40. Um final de tarde típico de verão: mar calmo e gaivotas voando. A brisa que vem do mar salga o ar vespertino. Com os olhos semicerrados e o rosto cheio de vincos devido à claridade excessiva, Martino tira lentamente um maço de L&M Lights do bolso e risca um fósforo para acender um cigarro. Com um ar de autoconfiança (mas sem qualquer afetação), reflete sobre o seu ofício de toda a vida: "Ser pescador é pra quem gosta de sofrer bonito". Como assim? "É ser sozinho, é ter liberdade, é ser um pouco triste no lugar mais bonito do mundo, o mar."
(O pescador Marino Streck, de Manuela Martini Colla)

Fonte: http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=2&lista=1&subsecao=54&ordem=1836&semlimite=todos

SOLILÓQUIO NAS ONDAS

Sim, mas aqui estou sozinho.
Levanta-se
uma onda
que disse o seu nome, não compreendo,
murmura, arrasta o peso
de espuma e movimento
e se retira. A quem
perguntarei o que me disse?
A quem entre as ondas
poderei nomear?
E espero.

Próxima, de novo, está a claridade,
levantou-se na espuma
o doce número
e não soube nomeá-lo.
Assim caiu o sussuro:
deslizou-se para a boca da areia:
o tempo que destruiu todos os lábios
com a paciência
da sombra e com
o beijo alaranjado
do verão.
Fiquei sozinho
sem poder acudir ao que este mundo,
sem dúvida, me oferecia,
ouvindo
como se debulhava esta riqueza,
as misteriosas uvas
do sal, e dum amor desconhecido
e ficava no dia degradado
só um rumor
cada vez mais distante
até que tudo o que eu poderia ser
converteu-se em silêncio.

Pablo Neruda - Memorial de la Isla Negra

Ilha do Superagui - Guaraqueçaba- PR

Canção Do Amor Demais

Quero chorar porque te amei demais
Quero morrer porque me deste a vida
Oh meu amor, será que nunca hei de ter paz
Será que tudo que há em mim
Só quer sentir saudade

E já nem sei o que vai ser de mim
Tudo me diz que amar será meu fim
Que desespero traz o amor
Eu nem sabia o que era o amor
Agora sei porque não sou feliz


Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

segunda-feira, 4 de agosto de 2008



Abacateiro - Guaraqueçaba/PR

Tiempo y siléncio

Una casa en el cielo
Un jardín en el mar
Una alondra en tu pecho
Un volver a empezar

Un deseo de estrellas
Un latir de gorrión
Una isla en tu cama
Una puesta de sol

Tiempo y silencio
Gritos y cantos
Cielos y besos
Voz y quebranto

Nacer en tu risa
Crecer en tu llanto
Vivir en tu espalda
Morir en tus brazos

Cesaria Evora

terça-feira, 3 de junho de 2008

Pra ti

Parati
Pra ti
Sol da manhã
Vive Arunã
Amanhã
Vou te encontrar
E te contar
Que vives em meu olhar...

MÚSICA

A Música me leve como um mar amargo!
À minha murcha estrêla,
Sob um teto de bruma ou por éter largo,
Vou soltando a vela;

O peito para a frente e os pulmões já inflados
Tal qual uma tela,
Subo o dorso dos vagalhões amontoados
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim o tropel de paixões
De nave sofrendo;
O bom vento, a tormenta e suas convulsões

Sôbre o abismmo horrendo
Me embalam. Outra vez na calma ela é o reflexo
De meu ser perplexo.


Baudelaire
- As flores do Mal -

O POETA

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silências e dúvidas
Para que outra sejam
Das suas, viúvas

Lábios qeu desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.

Vinícius de Morais
Para Viver um Grande Amor

domingo, 25 de maio de 2008

Como si fuera esta noche la última vez

Poder ouvir a Cesaria Evora, a diva dos pés descalços ao vivo é um privilégio. Por essa oportunidade a Virada Cultural já me valeu a pernada.
Na companhia de bons amigos no início da noite, as ruas do centro ainda estavam calmas. Pra completar encontrei meu parceiro Antonio. Bailamos e guiados pela bela voz,em devaneios musicais ....nos transportamos a Cabo-Verde.

É doce morrer no mar

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar(2x)

A noite que ele não veio foi
foi de tristeza para mim
saveiro voltou sozinho
triste noite foi para mim

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar

Saveiro partiu de noite e foi
madrugada não voltou
o marinheiro bonito
sereia do mar levou

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

Nas ondas verdes do mar meu bem
ele se foi afogar
fez sua cama de noivo
no colo de Iemanjá

É doce morrer no mar
nas ondas verdes do mar

Cesaria Evora
Composição: Jorge Amado/Dorival Caymmi

Participacao especial de Marisa Monte


Seo Licínio - Saco do Mamanguá - Paraty - RJ

Seo Licínio é um poeta. Escreve músicas e toca uma ciranda que é uma beleza!
Já tocou muito nos bailes e festas de Paraty. Hoje seu sonho é montar um grupo e voltar a tocar. Enquanto isso é o barqueiro que leva e traz as crianças da escola para a casa.

sábado, 24 de maio de 2008

Caiçaras de Paraty

Essa poesia aqui foi enviada por uma amiga, que é mais do que amiga, é companheira na remada caiçara de nossas vidas!
Obrigada amiga!

A você amiga... Antonia que brilha!!!
Que me inspirou hoje...
Que me ajuda a crer...
Crer na conexão...
Crer na ação...

E aos caiçaras de raça de Paraty.

"Caiçaras de Paraty
Que além de seus caminhos
cavam pelo mar suas histórias
suas esperanças e suas aspirações

Que carregam em suas canoas seus pescados
mas também seus sonhos e seus pecados

Que remam na busca do alimento
Mas também da salvação

Que tecem poesias no jazigo
E aprendem no mar a viver o infinito.



Assim como nós..."


cirandaeamor


Por Laise

domingo, 18 de maio de 2008

O Barco Embriagado

Enquanto eu acompanhava rios impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos rebocadores :
Índios aos berros os tomaram por alvo,
Pregando-os nus aos troncos de cores.

Não me preocupei com todas as equipagens
Carregando trigo flamengo ou algodão francês.
Quando com meus rebocadores acabou a gritaria,
Os rios me deixaram descer onde queria.
Através dos furiosos murmúrios das marés,
No outro inverno, mais surdo que mentes infantis,
Eu corri ! E as penínsulas desgarradas
Nunca tiveram tão triunfais algazarras...

Sei de céus que estalam em raios, de tormentas
Ressecas e correntes : sei da noite e do Alvorecer
Exaltado tal o revoar de miríades de pombas,
E vi certas o que o homem acreditou ver !

Vi o sol poente, manchado de horrores místicos,
Iluminando longos coágulos violetas,
Como atores de dramas muito antigos
Ondas distantes rolando arrepios de frestas !..

Vi fermentar enormes pântanos, ardis
Onde entre os juncos um Leviatã apodrece !
Despencam águas em meio a calmarias,
E horizontes para os abismos descem !
Queria mostrar às crianças estas douradas
Na onda azul, estes peixes dourados, estes peixes cantantes.
- Espumas de flores embalaram minhas ffugas
E inefáveis ventos me alaram por instantes.

Às vezes, mártir cansado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço adocava meus vagueios
Me alçou suas flores de sombra de ventosas amarelas
E eu ficava, qual mulher de joelhos...

E eu, barco perdido sob os cabelos das angras,
Pelo furacão no éter sem pássaro lançado,
A quem os Monitores e os veleiros das Hansas
Não teriam a carcaça ébria de água resgatado;

Eu que tremia, ouvindo gemer de cinquenta léguas
O cio dos demônios e dos abismos estreitos
Tecelão eterno das imobilidades azuis,
Lamento a Europa dos antigos parapeitos !

Se desejo uma água da Europa, é o charco
Negro e frio onde no crepúsculo perfumado
Cheio de tristeza um menino agachado
Como borboleta de maio solta o tênue barco.

Não posso mais, banhado por vossos langores, ô ondas,
Levar seus vulcos dos carregadores de algodões,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das chamas,
Nem nadar sob os horríveis olhos dos pontões.

1871

Arthur Rimbaud

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ilha das Cobras - Paraty- RJ

Arueira

Vim de longe, vou mais longe
Quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta
Pra junto a gente cobrar
No dia que já vem vindo
Que esse mundo vai virar
Noite e dia vêm de longe
Branco e preto a trabalhar
E o dono senhor de tudo
Sentado, mandando dar.
E a gente fazendo conta
Pro dia que vai chegar
Marinheiro, marinheiro
Quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro
Eu também sei governar.
Madeira de dar em doido
Vai descer até quebrar
É a volta do cipó de arueira
No lombo de quem mandou dar.

Geraldo Vandré

Aqui estás

Graça Divina
Escrever-te
Ouvindo tua voz
A ler estas palavras

Que graça e que gosto!
Em páginas brancas
Puras
Escorrer meus sentimentos

Puro
Límpido
Cristalino feito a água
que me invade
pela manhã
Do rio da vida

Que gosto!
Sentir teu sentido
Sonhar teu sorriso
E desenhá-lo em
alvas folhas

Divino
Saber que ao findar
a escrita
Tu já leras
Pois aqui estás!

sábado, 10 de maio de 2008

Oceano

Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão,
Dava prá ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim?

Enfim,
De tudo o que
Há na terra
Não há nada em lugar
Nenhum!
Que vá crescer
Sem você chegar
Longe de ti
Tudo parou
Ninguém sabe
O que eu sofri...

Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...

Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...

Só sei viver
Se for por você!


Djavan

Nascer

Sinto me diferente. Necessito escrever sobre essa experiência divina que vivi hoje. Creio que depois de tanta lágrima, de tanto remar, de tanto buscar, cheguei ao outro lado do rio. Vi a face da luz do amor. Ela me iluminou e foi uma luz tão forte, tão forte, que meus olhos se puseram a lacrimejar. E foi limpando toda a sujeira que não me deixava enxergar. Cada gota que escorria era uma felicidade e uma descoberta. O mundo passou a ter sentido. A vida passou a ter sentido. Os poetas, o cinema, a vida , o mar, os marinheiros, os pescadores, os peixes, tudo passou a ter um sentido. Um outro sentido. Um verdadeiro sentido para mim. A fé brilhou como ouro. E percebi quão valiosa é. A esperança surgiu, limpa e nova e reconheci teu valor. Não me preocupo mais com o final da reta. Me ocupo em começar a construí-la. E agora tenho minhas mãos, meu coração e todas as canções. Tenho o pensamento afinado com Deus e me basta! Construirei as ferramentas, apanharei o material bruto, pois tenho agora a ajuda deste grande arquiteto e a luz do amor me guiará.

21/04/08

O encontro

Chegou tão de repente
Foi ficando
Devagar
Como o amanhecer

Veio
Quebrou os limites
Trouxe paz
Felicidade e santidade

Parte que faltava
Deixou dias e noites
Completos
Trouxe maturidade

Cresce a acada dia
Toma conta de tudo
É sonho?
Não!
Está aí
Agora
Dentro e fora
De mim
Já me faz parte
Oh amor...
Aproveitando a paráfrase de Drummond na postagem anterior pubico aqui a ultima poesia dele que me veio aos olhos:

As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira no eclipse.

Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 6 de maio de 2008

SELVAGEM

A busca pelo selvagem partiu da provocação de um olhar. Um olhar atento, um olhar profundo. Um olhar de bicho quando espreita a caça. Apartir dai tomou todos os meus sentidos. Hoje posso dizer que a provocação deste olhar foi um grande presente de ano novo. Desde então vivo uma eterna busca. Porque mecheu tanto comigo? O que significava aquele sentimento? E mais ainda porque me identificava tanto com ele? Fui devorando livros e casos de amores selvagens, naturais, silvestres. Repito que foi um grande presente. Ganhei de volta a literatura brasileira, deixada na estande do colégio. Comecei tudo denovo, um renascimento. Voltei para os clássicos e descobri um mundo encantado. O mundo da literatura, que eu na verdade nunca tinha me dado conta. Encontrei muitas pérolas e uma delas foi José de Alencar. Críticas à parte. Esse grande romancista me trouxe pra perto da vivência de nossos índios e das minhas raízes. Ler teus romances indianistas me despertaram para a riqueza do imaginário de meus ancestrais, e com tuas histórias me transportei para as florestas, mares e rios. E consegui compreender o que me preendeu aquele olhar. A pureza da sua intensidade e a verdade que existe na pureza. Era isso que me faltava. E no meio do caminho tinha um tigre. Tinha um tigre no meio do caminho....

Hoje , voltava do trabalho lendo Ubirajara de José de Alencar, me deparei com algumas histórias sobre o mar, sobre a sua representação mítica para os tupinambás e pensei que seria muito bom compartilhá-las!!!! Ah tem uma também sobre mulheres fortes! Fortes como as ondas do mar!


Tupinambás!

GUERREIROS DO MAR

"Ele contou o que havia aprendido nas praias do mar, habitadas pela valente nação dos tupinambás, descendentes da mais antiga geração de Tupi. Os pajés dos tupinambás lhe disseram que nas águas do pará sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
Um dia esse guerreiros siriam das águas para tomarem a terra às nações que a habitam; por isso os tupinambás tinha descido às praias do mar, para defendê-las contra o inimigo.
Os guerreiros do mar*, também tinhas sua guerras entre si como guerreiros da terra. Então as águas pulavam mais altas do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma resina amarale, muito cheirosa*, a qual a grande serpente criava no bucho.
Os tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe cingia o artelho, presente de um guerreiro daquela nação.
Essas contas tornavam o pé do guerreiro ágil na corrida, e protegiam o viajante contra os caiporas da floresta, que apartavam-se de seu caminho"

* GUERREIROS DO MAR - tradução da palavra tupi caramuru com que os tupinambás da Bahia designaram Diogo Álvares Correia. Caramuru é composto de cará, alteração de Pará, mar, e môro, gente; homem do mar. Os selvagens acreditavam que as águas eram habitadas, e daí nasceu a lena da mãe-d'água, que se transmitiu à raça invasora. Nada mais natural do que chamarem ao primeiro branco, que lhes apareceu surgindo do oceano, Caramuru - o guerreiro do mar.

* RESINA AMARELA, MUITO CHEIROSA - é o âmbar, que os tupis chamavam Piraoçurepoti, e de que so tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas províncias do Norte.

PARÁ SEM FIM

"A primeira água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou, quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã guardou as águas do diluvio, depois que as retirou da terra.
Ainda Jurandir não era um caçador quando ele se banhou no pará sem fim*, onde os rios despejam a sua corrente e cujas águas, quando dormem, se mudam em sal.
Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios, desde a grande montanha onde nasce, até a várzea sem fim que ele enche com suas águas.
Ele viu o grande rio combater com o mar, são guerreiros azuis, com penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio; são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo.
Por muito tempo os tetivas*, que habitam a sobre as árvores, vêem passar correndo as águas do mar: são os guerreiros azuis qeu fogem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas."

* PARA SEM FIM - par, diz Humboldt, cit., pág 384, é um radical guarani e exprime água. Pará creio eu que significou a grande abundância d´água, e foi primitivamente empregado para designar os lagos e porventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os selvagens acrescentaram-lhe o verbo nhanbe, correr e disseram pará-nhanbe, donde paranãn, para designar as grande massas d´água corrente, isto e os rios caudalosos. Foi a subistituição do p pela análoga m que produziu o nome de Maranhão, acerca de cuja etimologia se inventaram tantas extravagâncias.
* TETIVAS - os tetivas habitam os olhos das palmeiras e de outras árvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt, cit., pág. 283.


Fonte: http://www.tribosdegaia.com.br/htm/artigos/zoe06.htm

Senhoras de seu corpo

"Jurandir* também viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo*, que vivem embaixo das águas do grande rio.
Só elas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem privá-las da liberdade.
Por isso, todas as luas, grande número de guerreiros as visitam em sua taba; e elas guardam para os mais valentes a flor de sua beleza.
Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam somente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, donde saem os maiores chefes.
Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda pra a flor do seu sangue. O filho será maior do que ele; e o neto maior do que o filho.
Sua geração vai assim crescendo de tronco em tronco; e forma uma floresta de guerreiros, onde o último cedro se ergue mais frondoso e robusto, porque recebe a seiva de seus avós"

- Passagem do livro Ubirajara de José de Alencar, momento em que o grande guerreiro Ubirajara, chamado na ocasião de Jurandir, se encontra na hospitalidade da taba do chefe de uma outra tribo, neste momento ele se depara com Araci, a bela virgem caçadora. Inicia a maranduba do hóspede, uma espécie de discurso, onde conta uma história de guerra ou viagem por meio de versos.

*JURANDIR - contração da frase Ajur-endy-pyra, o que veio trazido pela luz.

*SENHORAS DE SEU CORPO - metáfora tupi. No varão a parte nobre era o sangue; pelo que ele dizia do filho, tayra, o filho do meu sangue; e para indicar a independência diziam tayguara, que os dicionários traduzem livre, mas que literalmente significa, senhor do seu sangue. A mulher que dizia do filho membyra, o gerado de meu ventre; devia pela mesma razão usar a expressão análoga para exprimir sua liberdade, e dizer membyjara, senhora de seu ventre, que eu por elegância traduzo menos literalmente, sehora de seu corpo.

domingo, 4 de maio de 2008

Apaixonite Aguda

Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo

Itamar Assumpção
Preto Braz

O beijo que não te dei

O beijo que não te dei
Teu olhar não encontrei
O vazio
Ficou
Dia e lunas
Esperei
Do mar o marinheiro
Da boca o escudeiro
Viraria a rota
Acalentaria
Meu sono
No beijo que não te dei
Mora o sol e a esperança
No beijo que não te dei
Teu mel
Segredos
Acordados
Aguando
O bom do amor...

XCIV

Si muero sobrevíveme con tanta fuerza pura
que despiertes la furia del pálido y del frío,
de sur a sur levanta tus ojos indelebles,
de sol a sol que suene tu boca de guitarra.

No quiero que vacilen tu risa ni tus pasos,
no quiero que se muera mi herencia de alegría,
no llames a mi pecho, estoy ausente.
Vive en mi ausencia como en una casa.

Es una casa tan grande la ausencia
que pasarás en ella a través de los muros
y colgarás los cuadros en el aire.

Es una casa tan transparente la ausencia
que yo sin vida te veré vivir
y su sufres, mi amor, me moriré otra vez.

Cien sonetos de amor
Pablo Neruda

O homem e o mar

Homem livre, hás de ser sempre amigo do mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
E nem ela abismo é menos de amargurar.

Apraz-te mergulhar tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.

Mas ambos sempre sois tenebrosos e quedos:
Homem, ninguém sondou teu fundo sorvedouro,
Mar, ninguém viu jamais teu íntimo tesouro,
Porque muito sabeis guardar vossos segredos!

Porém passados são evos inumeráveis
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a carnagem e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

As flores do mal - Charles Baudelaire

O ultimo sol

Lembro-me bem
O dia do ultimo sol
A sonhar tudo o que o amor pode realizar
Um sonho acordado
E vivo
Gozei séculos de afagos
Em teus olhos
E finalmente me cobri de flores
Girando no teu céu
Em canto e dança
Sensual
Grande prazer dos sentidos
Ritmo vibrando no mais fundo de mim mesma

Oh! Maravilhoso isolamento
De silêncios profundos
Calma e larga ausência
Banhando-me na água do verdadeiro juramento

Ah! Como é doce naufragar-me nesse mar!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

MESTRES



Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br/

Contemplações do poeta ao cair da noite

Ainda há pouco, a reler a página admirável de frei Luís de Sousa, cujo título, possivelmente dado pelos antologistas Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Holanda, é (se em vez de poeta ler-se arcebispo) o mesmo desta crônica, tive a alegria de verificar quão parecidas eram as minhas noites de solidão em Montevidéu, com as de frei Bertolameu dos Mártires, mais de três séculos antes. Como o santo arcebispo, também eu passava o dia todo dando expediente, quiçá de menos hierarquia, pois enquanto ele devia andar às voltas com despachos celestiais, tinha eu a meu cargo despachos marítimos e terrestres, além da firmação de passaportes e faturas e da contagem diária dos emolumentos consulares.
E como fazia ele, com relação às coisas divinas, eu, ao fechar-se a noite sobre o cerro que provocou no descobridor a exclamação nominativa da cidade, depois de um curto trajeto de automóvel até o bairro de Pocitos, onde tenho meu apartamento num sétimo andar "pagava-me o peso do dia, e do trabalho com um passatempo malconhecido no mundo, e ao menos buscado de poucos (e ainda mal, que se muitos o buscaram fora melhor ao mundo)". Entregava-me a uma profunda contemplação da bem-amada ausente. Esta era a maneira de vencer a distância irremediável que se estendia diante dos meus olhos voltados para o norte e que às vezes buscavam, na linha descendente de Alfa e Beta de Centauro, o ponto exato onde ela, de sua janela sobre o parque, devia também pensar em mim.
E não se maravilhe ninguém de que eu, tal o arcebispo, passasse com tanta facilidade dos negócios à contemplação. Não tinha, é claro, "dês da primeira idade feito hábito neste santo exercício". Mas o que me faltava em penitências, sobrava-me em ternura e querer-bem. E se nele "este antigo costume lhe trazia a viola do espírito tão temperada sempre, que em qualquer conjunção que largava o negócio, logo a achava prestes para sem detença entoar as músicas da Celestial Jerusalém, e ficar absorto nos prazeres do divino ócio", eu por mim tinha sempre bem afinado o meu violão Del Vecchio, e me comprazia em machucar-me as saudades com os doridos acordes de tantas canções feitas para a bem-amada. E assim não me era por nada difícil passar de faturas a doçuras, e desligar-me da rotina do trabalho para a comunhão com a amiga distante, num lento evolar-se do meu ser empós sua adorável imagem, que às vezes parecia corporificar-se na lua que estava no céu. E não era incomum ficarmos, eu e a lua de Montevidéu, em doce conúbio, ela dilatando os espaços com os raios de seu amor, eu esvaindo-me de amor em seu luar. Pois era aquele o luar do meu bem no seu pungente exílio, a segredar-me que, mesmo ausente, ali estava para iluminar as minhas horas; e eu tivesse paciência e a esperasse dentro e fora de mim, que ela se vestira toda de luz para o nosso futuro encontro; e não me desesperasse, pois estava próximo o dia em que nunca mais nos haveríamos de separar.
De outros turnos - como no caso de frei Bertolameu, que dessem-lhe azo os negócios, "subia sobre tarde a um eirado que mandou fazer em uma casa das mais altas do Paço; e como o passarinho, que depois de andar todo o dia ocupado na fábrica de seu ninho, quando vai caindo o Sol, e as sombras crescendo, estende as asas pelo ar, dando umas voltas alegres, e desenfadadas, que parece não bole pena, ou posto sobre um raminho canta descansadamente", - também eu deixava-me estar no terraço de meu apartamento, um dos mais altos de Pocitos: e feito ele que, à imagem da avezinha, "depois de alargar os olhos pelas serras e outeiros, que do alto se descobriam, estendia os de sua alma às maiores alturas do Céu, voava com a consideração por aquelas eternas moradas, desabafava, e em voz baixa entoava de quando em quando alegres Hinos" - eu por minha vez, ante a idéia de compartilhar com a bem-amada a visão dos amplos espaços crepusculares do estuário do rio da Prata, e de rodeá-la, com meus braços dentro das iluminações do poente oriental, punha-me, tal um menino que, ai de mim, já não sou mais, a tamborilar com os dedos e a cantar com ela alegres sambas do meu Rio, que não é da Prata nem do Ouro, mas que é cidade de muito instante, e em hoje mora, em casa única, o meu antes triste e multifário coração.





Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
Vinicius de Morais

Sexta-feira com paixão

Minha tensão dinâmica
Me dá teu equilibrio
Um caminho de paz
Meu tesão permanente
Me dá teu fogo
Te dou a fogueira

Encantado...
Meu tigre alado
Me agarro em teus ramos
E vôo em tua selva

Devagar me vitaliza
Feito sol e vento
Brisa do mar
Sândalo divino
Sinto tua quentura
Fera minha
Me sacia ...

-LXVII-

La gran lluvia del sur cae sobre Isla Negra
como una sola gota transparente y pesada,
el mar abre sus hojas frías y la recibe,
la tierra aprende el humedo destino de una copa.

Alma mía, dame en tus besos el agua
salobre de estos meses, la miel del territorio,
la fragancia mojada por mil labios del cielo,
la paciencia sagrada del mar en el invierno.

Algo nos llama, todas las puertas se abren solas,
relata el agua un largo rumor a las ventanas,
crece el cielo hacia abajo tocando las raíces,

y así teje y desteje su red celeste al día
con tiempo, sal, susurros, crecimientos, caminos,
una mujer, un hombre, y el invierno en la tierra

Cien sonetos de amor
Pablo Neruda


Foto: Nahuel

Vida

Não compreendo
Lagrimas deslizam
Pela felicidade
De meu rosto
Ao sentir teu coração
Amanhecendo junto ao meu

Não entendo
O que dizem
Mas cada gota
Renasce em mim
A vida

Dentro da enternidade
Sem mistério
Reconheço-te
Meu porto
Meu ninho
Assim devagarzinho
Vai surgindo
A beleza
Desta manhã

Tua Onda

Fluxo e refluxo
Retorno marulhado
Encontro de duas ondas
Vai
Vem
Se encontram
Se unem
Se fundem
Na gandaia
Beira de praia

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Soneto de Amor - XLVI

Das estrelas que admirei,
molhadas
por rios e rocios diferentes,
eu não escolhi senão
a que eu amava
e desde então durmo
com a noite.

Da onda, uma onda e outra
onda,
verde mar, verde frio, ramo
verde,
eu não escolhi senão
uma só onda:
a onda indivisível
de teu corpo.

Todas as gotas, todas as
raízes,
todos os fios da luz vieram,
vieram-me ver tarde ou cedo.

Eu quis para mim tua cabeleira.
E de todos os dons de minha
pátria
só escolhi teu coração
selvagem.

Pablo Neruda

terça-feira, 15 de abril de 2008

Bendita tu Luz

Bendito el lugar y el motivo de estar ahí
Bendita la coincidencia
Bendito el reloj que nos puso puntual ahí
Bendita sea tu presencia
Bendito Dios por encontrarnos en el camino
Y de quitarme esta soledad de mi destino

Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada
Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada desde el alma

Benditos ojos que me esquivaban
simulaban desdén que me ignoraban
Y de repente sostienes la mirada(tarantintiriran)

Bendito Dios por encontranos en el camino
Y de quitarme esta soledad de mi destino

Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada
Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada

Gloria divina de esta suerte, del buen tino
Y de encontrarte justo ahi en medio del camino
Gloria al cielo de encontarte ahora, llevarte mi soledad
y coincidir en mi destino, en el mismo destino

Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada
Bendita la luz
Bendita la luz de tu mirada

Bendita mirada oh oh
Bendita mirada desde el alma
Tu mirada oh oh
Bendita bendita bendita mirada
Bendita tu alma y bendita tu luz
Tu mirada oh oh
Te digo es tan bendita tu luz, amor, amor
Tu mirada oh oh

Bendito el reloj y bendito el lugar
Benditos tus besos cerquita del mar
Tu mirada oh oh
Amor, amor, qué bendita tu mirada
Tu mirada amor

Maná
Composição: Fher Olvera

domingo, 13 de abril de 2008

A canoa fantástica

Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s'escoa...
No dorso da correnteza,
Como bóia esta canoa!...

Mas não branqueja-lhe a vela!
N'água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?

Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!...

Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?

Caída, pálida, branca!...
Não há quem dela se doa?!...
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!...

E as flores róseas dos golfos,
— Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!...

Castro Alves

Caçada



Noite madrugada
Fina empolgada
Tudo procurava
Porém, grande gato
Tu me encontrara
Nas horas perdidas
Minha alma se abriu
Exalou inocência
Como açucena
Tirada pra dançar
Dança secreta do olhar
Imergi
Mar do eterno agora
Sorrisos
Silêncio

Caçador noturno
Predador carnivoro
Devorou meu cheiro
Saciou meu desejo
Rasgou o coração
Nossas peles alvas
Se uniram rubras
Teu gosto de terra
Invadiu meus sentidos
Ofegante
Perdi a visão...


Amanheço
terra
Respiro
desejo
Sem rumo
Sinto tua mão
- Vem, vamos sair! Ver o sol!

segunda-feira, 17 de março de 2008

Quase Nada!



De você sei quase nada
Pra onde vai
Ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
Do meu caminho
Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo pra toda fome que há no mundo

Noite alta que revela,
Um passeio pela pele
Dia claro
Madrugada
De nós dois não sei mais nada

Se tudo passa como se explica?
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

De você sei quase nada
Quase nada

Zeca Baleiro

terça-feira, 11 de março de 2008

Será?

O que gostaria, não consigo realizar
Fico pensando
Sei lá em quê
Mas quando vejo as horas
Percebo
O tempo passa
A vida vai
Algo fica
As vezes acha que esqueceu
Finge
E engana a si mesmo
Fica pensando em nada
Esquecendo de tudo
E vê que sente
Sente falta
Até o vento faz lembrar
Suspirar
Será?
Não consigo realizar
O que gostaria
Fico pensando
Sei lá em quê
Mas quando vejo as horas
Percebo
O tempo passa
A vida vai
Algo fica
Acha que esqueceu
Finge
E engana a si mesmo
Fica pensando em nada
Esquecendo de tudo
E sente
Sente falta
Até o vento faz lembrar
Suspirar
Algo na vida pra nunca mais esquecer...

terça-feira, 4 de março de 2008

PALAVRAS AO MAR



Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de tu unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouvia,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
- Longínquo céu - de um esplendor distante.
Debalde, o mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...
Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!
Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives - entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem...
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!
Fosse tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem - áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte...
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante - perto
Do teu desejo e além do teu alcance!
Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
- Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada...
Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma...
Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.
Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!... A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!
Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

(Vicente de Carvalho)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Uma manhã ...

Um olhar carrega consigo magia
Leva ao desconhecido

Cabeceira da cama é a felicidade
O lençol é névoa matutina
Cobre os corpos
Com a paz serena de uma manhã

Não Posso Evitar de me Apaixonar




Sábios dizem que só os tolos se aventuram;
Mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você;
Devo eu ficar!? Seria isso um pecado!?;
Se eu não consigo evitar de me apaixonar por você;

Assim como um rio vai certamente para o mar;
Assim isso também é certo (segue);
Algumas coisas são para acontecer;

Pegue minha mão;
Pegue minha vida inteira também;
Por eu não evitar de me apaixonar por você...

Bob Dylan