"A primeira água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou, quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã guardou as águas do diluvio, depois que as retirou da terra.
Ainda Jurandir não era um caçador quando ele se banhou no pará sem fim*, onde os rios despejam a sua corrente e cujas águas, quando dormem, se mudam em sal.
Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios, desde a grande montanha onde nasce, até a várzea sem fim que ele enche com suas águas.
Ele viu o grande rio combater com o mar, são guerreiros azuis, com penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio; são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo.
Por muito tempo os tetivas*, que habitam a sobre as árvores, vêem passar correndo as águas do mar: são os guerreiros azuis qeu fogem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas."
* PARA SEM FIM - par, diz Humboldt, cit., pág 384, é um radical guarani e exprime água. Pará creio eu que significou a grande abundância d´água, e foi primitivamente empregado para designar os lagos e porventura as vastas inundações do vale do Amazonas. Mais tarde os selvagens acrescentaram-lhe o verbo nhanbe, correr e disseram pará-nhanbe, donde paranãn, para designar as grande massas d´água corrente, isto e os rios caudalosos. Foi a subistituição do p pela análoga m que produziu o nome de Maranhão, acerca de cuja etimologia se inventaram tantas extravagâncias.
* TETIVAS - os tetivas habitam os olhos das palmeiras e de outras árvores: põem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt, cit., pág. 283.
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