terça-feira, 6 de maio de 2008

Senhoras de seu corpo

"Jurandir* também viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo*, que vivem embaixo das águas do grande rio.
Só elas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem privá-las da liberdade.
Por isso, todas as luas, grande número de guerreiros as visitam em sua taba; e elas guardam para os mais valentes a flor de sua beleza.
Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam somente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, donde saem os maiores chefes.
Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda pra a flor do seu sangue. O filho será maior do que ele; e o neto maior do que o filho.
Sua geração vai assim crescendo de tronco em tronco; e forma uma floresta de guerreiros, onde o último cedro se ergue mais frondoso e robusto, porque recebe a seiva de seus avós"

- Passagem do livro Ubirajara de José de Alencar, momento em que o grande guerreiro Ubirajara, chamado na ocasião de Jurandir, se encontra na hospitalidade da taba do chefe de uma outra tribo, neste momento ele se depara com Araci, a bela virgem caçadora. Inicia a maranduba do hóspede, uma espécie de discurso, onde conta uma história de guerra ou viagem por meio de versos.

*JURANDIR - contração da frase Ajur-endy-pyra, o que veio trazido pela luz.

*SENHORAS DE SEU CORPO - metáfora tupi. No varão a parte nobre era o sangue; pelo que ele dizia do filho, tayra, o filho do meu sangue; e para indicar a independência diziam tayguara, que os dicionários traduzem livre, mas que literalmente significa, senhor do seu sangue. A mulher que dizia do filho membyra, o gerado de meu ventre; devia pela mesma razão usar a expressão análoga para exprimir sua liberdade, e dizer membyjara, senhora de seu ventre, que eu por elegância traduzo menos literalmente, sehora de seu corpo.

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