Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Bocochê

Menina bonita, pra onde é "qu'ocê" vai
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar


Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É onda que vem
Nhem, nhem, nhem
Tristeza que vai
Nhem, nhem, nhem
Tristeza que vem

Foi e nunca mais voltou
Nunca mais! Nunca mais
Triste, triste me deixou

Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vem
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vai
Nhem, nhem, nhem
Não volta ninguém

Menina bonita, não vá para o mar


Vou me casar com o meu lindo amor
No fundo do mar

Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É onda que vem
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vai
Nhem, nhem, nhem
Não volta ninguém

Menina bonita que foi para o mar
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá

Vinicius de Moraes / Baden Powell


Ah poetinha!!!

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Último Tigre

Não é o de Blake,em chamas
nem o que entreviu Borges
através das barras,talvez até
impressas no pêlo,temperando
o ouro do ataque e do remanso
interrompido pelas tiras de sombra
indo e vindo,entre o mel e a fera.
Mas o que sobrou na Ásia ou África
-fogueira sozinha se extinguindo
em sua fúria e instinto sem a mão
que contorne a ferocidade da garra
e do olhar extremo,ou a lembrança
do seu nobre metal aceso,sol aberto
mesmo dentro da cegueira,agora
cada vez mais riscado e escurecido
pelas linhas do grafite e do carvão.

Armando Freitas Filho

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Canoeiro

leva-me, canoeiro, para além da curva do rio,
que seja a tua canoa um quadro sem mar.
desenha-me nas sombras e nos mistérios
da sofreguidão das ondas, do acender
das sílabas, da sede que busca as vinhas,
do ardor que chega à praia e funda instantes
densos, na preamar.
cuida da minha alma, pega-a no colo,
toca meu corpo sem palavras, faz-me feliz
com lágrimas, para que eu não esqueça
do gosto da água temperada com sal.
lava-me de todo o simbólico e do imaginário
que marca o real, mostra-me o ultra-secreto
desse lugar. que seja uma carícia quente
na água da vida, o teu remar; que seja leve
o balanço e que, numa dádiva silenciosa
- em reverência -
o estado da arte sorva a saudade
e sugue de nossos lábios o poema.

Sonia Regina

Paraty, 21.4.06

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

EL GRAN OCEÁNO

SI de tus dones y de tus destrucciones, Océano
a mis manos
pudiera destinar una medida, una fruta, un fermento,
escogería tu reposo distante, las líneas de tu acero,
tu extensión vigilada por el aire y la noche,
y la energía de tu idioma blanco
que destroza y derriba sus columnas
en su propia pureza demolida.

No es la última ola con su salado peso
la que tritura costas y produce
la paz de arena que rodea el mundo:
es el central volumen de la fuerza,
la potencia extendida de las aguas,
la inmóvil soledad llena de vidas.
Tiempo, tal vez, o copa acumulada
de todo movimiento, unidad pura
que no selló la muerte, verde víscera
de la totalidad abrasadora.

Del brazo sumergido que levanta una gota
no queda sino un beso de la sal. De los
cuerpos
del hombre en tus orillas una húmeda
fragancia
de flor mojada permanece. Tu energía
parece resbalar sin ser gastada,
parece regresar a su reposo.

La ola que desprendes,
arco de identidad, pluma estrellada,
cuando se despeñó fue sólo espuma,
y regresó a nacer sin consumirse.

Toda tu fuerza vuelve a ser origen.
Sólo entregas despojos triturados,
cáscaras que apartó tu cargamento,
lo que expulsó la acción de tu abundancia,
todo lo que dejó de ser racimo.

Tu estatua está extendida más allá de las olas.

Viviente y ordenada como el pecho y el manto
de un solo ser y sus respiraciones,
en la materia de la luz izadas,
llanuras levantadas por las olas,
forman la piel desnuda del planeta.
Llenas tu propio ser con tu substancia.
Colmas la curvatura del silencio.
Con tu sal y tu miel tiembla la copa,
la cavidad universal del agua,
y nada falta en ti como en el cráter
desollado, en el vaso cerril:
cumbres vacías, cicatrices, señales
que vigilan el aire mutilado.


Tus pétalos palpitan contra el mundo,
tiemblan tus cereales submarinos,
las suaves ovas cuelgan su amenaza,
navegan y pululan las escuelas,
y sólo sube al hilo de las redes
el relámpago muerto de la escama,
un milímetro herido en la distancia
de tus totalidades cristalinas.

Pablo Neruda - Canto General

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

EM TODO LUGAR E EM PARTE ALGUMA

"e no entanto há também o canto do mar - aquele grito constante , constantemente um grito que não era nosso" wallace stevens - poeta americano

todas as eras a bordo de um barco.
eu não via o desenho do território .os navios .ninguém via.desde os franceses embora sempre houvesse uma estória sobre navios ancorados pela região em algum período remoto,mesmo assim,eu não via .

isso reforça a idéia de que esse lugar talvez não tenha existido para o mundo .
Para um sujeito continental então..



Lembro que estamos ancorados, fixados na solo .Nas grandes cidades portuárias,o chão do horizonte, a platitude é que vem até nós .por isso o porto .por isso a cidade do porto , buenos aires, Rio .por isso a espera.
Por que os homens escolheram a terra?




No Mar vamos ao encontro do tempo .Se "no aqui" hace sol ,o navegar por algumas milhas marinhas nos leva em poucas horas aonde a chuva está .A casa da chuva.Eu a visito.cobrimos o barco com lona azul, cobrimos nossos corpos com casacos.A fumaça do diesel tempera o cheiro do mundo. o barco nos leva para o que existe antes de nós .

O ponto de fuga guarda o instante .o instante não vem . o instante é .estamos temperados de instante e diesel .instante aqui é sol . é sal.é labirinto de mangues . é caranguejo.é pesca.visitamos o instante.agora é sério, isso aqui nunca existiu.


quando o barqueiro dá liga ao motor , o povoado não fica para trás . ele desaparece . é como se os pequenos povoados que deixamos jamais houvessem existido .é como se naqueles povoados onde chegamos jamais tivesse ocorrido alguma espécie de visita ou descoberta.
eu fico com a impressão que o passado não existe o futuro já se sabe, também não.estou impresso numa constante despedida.essa febre é causa.o barco desliga o motor.ficamos em silêncio.não é preciso preencher a vida com mais nada.as conversas perdem o sentido.você fica dentro do Mar , da ondulação . cada um de nós mira o olhar para uma abertura oceânica, para um plano particular da memória.cada um de nós é um ser muito inquieto mesmo quando deixamos de mover qualquer parte do corpo.o queixo por exemplo.mesmo quando deixamos de ler jornais ou acessar emails .



Veja : o silêncio que a música deixa no fim .




O continente segue desdobrando.Estamos no útero de um barco . resguardados de destino.as linhas-ilhas se confundem e dentro das linhas ,leitos navegáveis e uma vida levada em pequenos vilarejos sobrepostos na estória da eternidade, da solidão.

adiante é a africa.acima retalhos de cor .telhados coloridos.sílabas solares.

Ouvi dizer que o barco vem amanhã .Viria hoje mas a maré está baixa .
Todas as horas e na blusa de 3 dias uma espera,uma umidade.as bananas estão passando do ponto.tudo é a próxima viagem .descansamos por cima do cansaço.debaixo de insetos .eu vou me deixando em camadas.é uma viagem bastante barroca .de acumulações.
você chega .o barco chega com o novo, com mercadorias , com o querosene e o diesel para o gerador .todas as horas. as pessoas esperam algo de você .querem notícias dos mundos exteriores.eu não tenho nada a oferecer a eles que não seja o meu jeito de ser quieto.
chegamos . sempre a chegar.
os meninos canoeiros deslizam sobre águas e vem buscar as malas .estamos a uns 20 metros de lama do chão firme .os meninos canoeiros movem a pequena embarcação já como se ela fizesse parte de seus corpos mesmos .intimidade orgânica mimesis..
rápidos num desatino e eles já se vão na curva esquecida dos manguezais.um outro desatino e já naveguam de volta , sorriso vadio zombando levemente de nossa falta , falta de saberes para com o lugar.uma alegria sem freios pela cor que o estrangeiro pinta ,pelo quereres que brota de nossaS caras famintas e sujas .
um descuido e os meninos que até um tanto atrás prozeavam da canoa beirando a proa do barco que nos navegua ,e já se vão como dois riscos compridos e negros já bem amigos da distância, engolidos pela noite.
na margem.somos as visitas .somos as horas .o coraçao deles está aberto.comida farta .lenha.todas as horas segredos de familia .teatro japonês. jovens que foram embora.hiato.velhos e criancas.alcoolismo.gestos cifrados.peixe fresco , cagada no mato .farra-alegria-música.centenas de baratas .ar fresco. chuva miuda.
primeira manhã. os garotos a beira no canal limpam as peças.peças de trabalho.cada mão num vértice . rede .cada qual faz o saber.cada qual sabe o fazer. o saber que conheceram vendo seus pais no recorrente cerco aos bagres, pacas e tatus .Cada peça de labor da caça ,da pesca como objetos de precisão .objetos musicais.

a rabeca cria uma i-margem .cria um tom sonhador .invento mitos, personagens brasileiros encantados.nessa floresta de goethe , nessa floresta brasileira ,eu sonhei o sonho de uma rabeca anoitecida .rabecas lascadas de arquitetura em sombras . seu som oferece espaço ao romantismo ,ao romantismo dos primos, ao encontro .Um teatro que faz o amor mesmo com poucas peças.

peças : rede : peças : pequenas safadezas.

está tudo dentro do mundo.o nome do lugar é "aqui". limpam as redes.dobram a rede .re-dobram o fim do dia na lâmina do tempo. o mar é uma bacia homôgenea .o mar é uma peça .um braço bravo da coisa atlântica que se escuta e não se vê.as ondas . a arte de não mostrar.tudo que nao se mostra eu gosto.a natureza nao mostra tudo.a floresta não se mostra .ao redor ela se expressa enquanto signo mas sem revelar .no fundo ela é um espelho .tudo que a vida instrumental e quotidiana nos leva , nos furta a natureza está ali para nos factuar.os mitos fundadores do desejo , do perigo, da sedução.
há 200 anos esse Brasil profundo na regiao de Ariri e Abacateiro no sul do São Paulo , ao norte do Paraná , devia ser muito parecido como que o que vejo agora.mangue. montanhas.mar aberto nas redondezas.
Cômpor este quadro a-histórico .ao entardecer. dirigir-se a margem diante de um céu instável , diante de um céu de pollock..pôr-se ali.fazer-se parte dali.vadio.ao lado de cães tristes ,mas uma tristeza boa .
os garotos deixam um sorriso no canto do vento , na quebrada do desenho .o Giovani sorri para mim .ele mergulha na água silenciosa e escura e bota os olhos solares para fora enquanto o sol mesmo se põe..olhos de jacaré.as crianças beiram qualquer coisa .o geovani e suas duas gramas de idade.o mar , conversas , sonos, preguiça , comidas, sons de rádio .
as crianças daqui nomeiam o Ser da maneira que lhes convém .

O humor das raizes aéreas que margeiam a região.tobi é um cachorro que ri sozinho.a irmã de geaovani ri .O riso dela tem concordância com borboletas.as mulheres acenam timidamente ,beijam sem encostar o rosto mas elas querem .
Olham os homens estrangeiros de longe.longe dos olhos dos maridos,
Seu Geraldo nos guarda .ele é o patriarca.ele tece rabeca do interior de seu espirito . um poeta-músico.seu olho está voltado para o humanismo . me deparo com um homem que é um sábio .sábio :aquele que compreende que não sabe tudo.
Com o seu geraldo ,retorno a um homem com poder de construir.retorno a um naturante que está em nós.

mas há ai um jogo.ele joga.nada é fácil .fácil não é com ele.tem perfeição nele não. seu geraldo não fala com a sua mulher .conta-se que foi buscá-la na cidade .a mulher havia fugido com outro.
hoje ela fica a espreita mas não submissa . ela é forte .um dia ela ainda sai dali , de seu labirinto sentimental.seus cabelos devem fazer as trilhas do passado.ela cuidou dos filhos ,cozinhou para eles, os viu crescer e irem embora para a cidade grande exatamente de onde teve que voltar.Ir embora é um gesto misterioso no Aqui.

De manhã a luz é do fogo.de dia a luz é do sol.parece óbvio não?voce vai enxergar .vc vai enxergar ?em enxerguei ele nos abraços.eu enxerguei ele naquilo que ele gosta de fazer:equilibrar o barco com as cordas.antes daqui eu estava já distante de entender o volume dos dias.

e depois ? seu geraldo vem com as estórias.impressões originais sobre a aventura humana.ele sai de fininho e vai dormir.colchão no chãO.diz que parou com a chachaça mas toma .é ligeiro no copo .tem muita coisa aqui que acorda solidão.
sua presença corta a noite.a prosa como instrumento de conhecimento. diz a hora de parar .apaga o lampião.dá boas vindas ao cAnsaço.ensina com o olhar .tem muita coisa aqui que acorda solidão.
gaivota,rasga em vôo exato, compacto .vira pato.compete com a precisão.compete não , faz par.ela acompanha a última vida do peixe que irá comer . ela segue o cardume no percurso sinuoso de cima ,e traça um risco , reto em direção ao resultado da equação , ao peixe .ela revela a morte pro peixe .e o peixe não sabe que seu desespero antecipado ajuda a escrever no mundo a paixão inconsciente que os seres vivos nutrem pelos segundos.
nós animais ,não sabemos que no intervalo entre vida e morte é que a solidao acorda.
acordei já na auto estrada de volta. aquelas vilas existiram?
fez-se o tempo. fez-se.
fazia tempo que eu não dava adeus acenando com as mãos para as pessoas que ficam .fazia tempo que eu não ficava mesmo tendo ido embora.
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"Demos adeus um ao outro junto à montanha,/Quando o dia se aproximou do crepúsculo, fechei o portão de madeira ./No próximo ano , na primavera , novamente a relva será verde./Mas meu nobre amigo voltará?"Wang Wei SEC VIII Dinastia Tang
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A única forma de estabelecer um jogo crível com o tempo é deixar-se nos lugares por onde se passa . a única maneira é pensarmos que podemos chegar no futuro como se fosse a primeira vez .
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"é o instante , esse pássaro que está em toda parte e em nenhuma .Queremos pegá-lo vivo,mas abre as asas e desvanece,transformado em um punhado de sílabas.Fiacamos de mãos vazias.Então as portas da percepção se entreabrem e aparece o outro tempo , o verdadeiro,o que buscávamos sem sabê-lo : o presente , a presença"Octavio Paz
* fotos de antonia moura .

Por Gwazz
Postado originalmente no blog http://gwazz.blogspot.com/2008/12/em-todo-lugar-e-em-parte-alguma.html

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

NOVO

Em mim
Tudo diferente
De dentro em diante,
mente.
Pra fora,
chão.

INDIFERENTEMENTE

De longe vejo passar no rio um navio....
Vai Tejo abaixo indiferentemente.
Mas não é indiferentemente por não se importar comigo
E eu não exprimir desolação com isto...
É indiferentemente por não ter sentido nenhum
Exterior ao facto isoladamente navio
De ir rio abaixo sem licença da metafísica...
Rio abaixo até a realidade do mar.

Alberto Caeiro - Poemas Inconjuntos
AMOR MEU, se morro e tu não morres,
amor meu, se morres e não morro,
não demos à dor mais território:
não há extensão como a que vivemos.

Pó no trigo, areia nas areias,
o tempo, a água errante, o vento vago
nos transportou como grão navegante.
Podemos não nos encontrar no tempo.

Esta campina em que nos achamos,
oh pequeno infinito! devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,

e assim como não teve nascimento
morte não tem, é como um longo rio
só muda de terras e de lábios.


Pablo Neruda - Cem sonetos de Amor

AUSÊNCIA

"Nem a poesia, amor
Na sua ausência quis me receber"

Vinícius de Morais/ Francis Hime

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

OUTRO MAR



Poesia minha
ligação para o universo
Teu mar continuará lá
batendo nas pedras e quebrando na praia
Iluminando o verão,
me lavando no outono,
cultivando no inverno
e renascendo na primavera
Águas divinas
minha proteção
nossa natureza nos une
mesmo que o coração não cante
e o sol não queime

E agora quando tudo morre
Renasço em flores
Em todo mar
Lançarei meu olhar
Meu caminhar
Carrego a única dor
do porquê
De uma só maré
De uma só remada
De uma só espiada
Tuas águas percorrer.

O caçador de esmeraldas

Verde que te quiero oro

Bandeiras removendo a terra
Esmeralda que aguarda agora
No riacho além de Tordesilhas.

É...
Fernão se apaixonou como um selvagem
Pela sereia do sertão, na água.
Imagem virgem,
Miragem esverdeada ao sol.

No mel das abelhas e nos frutos
O gosto dela, a febre da paixão
Fernão se esmerava na conquista
De Esmeralda, inferno de Fernão.

E um dia...
Num fusca duas portas, dois amantes:
Fernão louco, Esmeralda desvairada
O enleio dos delirantes
No Recreio dos Bandeirantes.

João Bosco/ Cláudio Tolomei / Aldir Blanc

O Caçador de Esmeraldas

I

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
Do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
- Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.

Ah! quem te vira assim, no alvorecer da vida,
Bruta Pátria, no berço, entre as selvas dormida,
No virginal pudor das primitivas eras,
Quando, aos beijos do sol, mal compreendendo o anseio
Do mundo por nascer que trazias no seio,
Reboavas ao tropel dos índios e das feras!

Já lá fora, da ourela azul das enseadas,
Das angras verdes, onde as águas repousadas
Vêm, borbulhando, à flor dos cachopos cantar;
Das abras e da foz dos tumultuosos rios,
Tomadas de pavor, dando contra os baixios,
As pirogas dos teus fugiam pelo mar...

De longe, ao duro vento opondo as largas velas,
Bailando ao furacão, vinham as caravelas,
Entre os uivos do mar e o silêncio dos astros;
E tu, do litoral, de rojo nas areias,
Vias o Oceano arfar, vias as ondas cheias
De uma palpitação de proas e de mastros.

Pelo deserto imenso e líquido, os penhascos
Feriam-nas em vão, roíam-lhes os cascos...
A quantas, quanta vez, rodando aos ventos maus,
O primeiro pegão, como a baixéis, quebrava!
E lá iam, no alvor da espumarada brava,
Despojos da ambição, cadáveres de naus.

Outras vinham, na febre heróica da conquista!
E quando, de entre os véus das neblinas, à vista
Dos nautas fulgurava o teu verde sorriso,
Os seus olhos, ó Pátria, enchiam-se de pranto:
Era como se, erguendo a ponta do teu manto,
Vissem, à beira d'água, abrir-se o Paraíso!

Mais numerosa, mais audaz, de dia em dia,
Engrossava a invasão. Como a enchente bravia,
Que sobre as terras, palmo a palmo, abre o lençol
Da água devastadora, - os brancos avançavam:
E os teus filhos de bronze ante eles recuavam,
Como a sombra recua ante a invasão do sol.

Já nas faldas da serra apinhavam-se aldeias;
Levantava-se a cruz sobre as alvas areias,
Onde, ao brando mover dos leques das juçaras,
Vivera e progredira a tua gente forte.
Soprara a destruição, como um vento de morte,
Desterrando os pajés, abatendo as caiçaras.

Mas além, por detrás das broncas serranias,
Na cerrada região das florestas sombrias,
Cujos troncos, rompendo as lianas e os cipós,
Alastravam no céu léguas de rama escura;
Nos matagais, em cuja horrível espessura
Só corria a anta leve e uivava a onça feroz:

Além da áspera brenha, onde as tribos errantes
À sombra maternal das árvores gigantes
Acampavam; além das sossegadas águas
Das lagoas, dormindo entre aningais floridos;
Dos rios, acachoando em quedas e bramidos,
Mordendo os alcantis, roncando pelas fráguas;

- Aí, não ia ecoar o estrupido da luta.
E, no seio nutriz da natureza bruta,
Resguardava o pudor teu verde coração!
Ah! quem te vira assim, entre as selvas sonhando,
Quando a bandeira entrou pelo teu seio, quando
Fernão Dias Pais Leme invadiu o sertão!
II
Para o norte inclinando a lombada brumosa,
Entre os nateiros jaz a serra misteriosa;
A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas,
E águas crespas, galgando abismos e barrancos
Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos
Em cujos socavões dormem as esmeraldas.


Verde sonho!... é a jornada ao país da Loucura!
Quantas bandeiras já, pela mesma aventura
Levadas, em tropel, na ânsia de enriquecer!
Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada
Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada,
Que vêm, a uivar de fome, as onças remexer.

Que importa o desamparo em meio do deserto,
E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto
De terror em terror, lutando braço a braço
Com a inclemência do céu e a dureza da sorte?
Serra bruta! dar-lhe-ás, antes de dar-lhe a morte,
As pedras de Cortez, que escondes no regaço!

E sete anos, de fio em fio destramando
O mistério, de passo em passo penetrando
O verde arcano, foi o bandeirante audaz.
- Marcha horrenda! derrota implacável e calma,
Sem uma hora de amor, estrangulando na alma
Toda a recordação do que ficava atrás!

A cada volta, a Morte, afiando o olhar faminto,
Incansável no ardil, rondando o labirinto
Em que às tontas errava a bandeira nas matas,
Cercando-a com o crescer dos rios iracundos,
Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos,
Onde vinham ruir com fragor as cascatas.

Aqui, tapando o espaço, entrelaçando as grenhas
Em negros paredões, levantavam-se as brenhas,
Cuja muralha, em vão, sem a poder dobrar,
Vinham acometer os temporais, aos roncos;
E os machados, de sol a sol mordendo os troncos,
Contra esse adarve bruto em vão rodavam no ar.

Dentro, no frio horror das balseiras escuras,
Viscosas e oscilando, úmidas colgaduras
Pendiam de cipós na escuridão noturna;
E um mundo de reptis silvava no negrume;
Cada folha pisada exalava um queixume,
E uma pupila má chispava em cada furna.

Depois, nos chapadões, o rude acampamento:
As barracas, voando em frangalhos ao vento,
Ao granizo, à invernada, à chuva, ao temporal.
E quantos deles, nus, sequiosos, no abandono,
Iam ficando atrás, no derradeiro sono,
Sem chegar ao sopé da colina fatal!

Que importava? Ao clarear da manhã, a companha
Buscava no horizonte o perfil da montanha...
Quando apareceria enfim, vergando a espalda,
Desenhada no céu entre as neblinas claras,
A grande serra, mie das esmeraldas raras,
Verde e faiscante como uma grande esmeralda?

Avante! e os aguaçais seguiam-se às florestas...
Vinham os lamarões, as leziras funestas,
De água paralisada e decomposta ao sol,
Em cuja face, como um bando de fantasmas,
Erravam dia e noite as febres e os miasmas,
Numa ronda letal sobre o podre lençol.

Agora, o áspero morro, os caminhos fragosos.
Leve, de quando em quando, entre os troncos nodosos
Passa um plúmeo cocar, como uma ave que voa...
Uma frecha, subtil, silva e zarguncha... É a guerra!
São os índios! Retumba o eco da bruta serra
Ao tropel... E o estridor da batalha reboa.

Depois, os ribeirões, nas levadas, transpondo
As ribas, rebramando, e de estrondo em estrondo
Inchando em macaréus o seio destruidor,
E desenraizando os troncos seculares,
No esto da aluvão estremecendo os ares,
E indo torvos rolar nos vales com fragor...

Sete anos! combatendo índios, febres, paludes,
Feras, reptis, - contendo os sertanejos rudes,
Dominando o furor da amotinada escolta...
Sete anos!. .. E ei-lo de volta, enfim, com o seu tesouro!
Com que amor, contra o peito, a sacola de couro
Aperta, a transbordar de pedras verdes! - volta...

Mas num desvio da mata, uma tarde, ao sol posto,
Pára. Um frio livor se lhe espalha no rosto...
E a febre! O Vencedor não passará dali!
Na terra que venceu há de cair vencido:
E a febre: é a morte! E o Herói, trôpego e envelhecido,
Roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...
III
Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde.
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma solidão e na mesma hora triste,
À agonia do herói e à agonia da tarde.

Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.
Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras
Uivam nas lapas. Desce a noite, como um véu...
Pálido, no palor da luz, o sertanejo
Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.
- Fernão Dias Pais Leme agoniza, e olha o céu.

Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida
Em surtos de paixão e febre repartida,
Toda, num só olhar, devorando as estrelas!
Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,
- Que as implora, que bebe a sua luz tranqüila,
Que morre... e nunca mais, nunca mais há de vê-las!

Ei-las todas, enchendo o céu, de canto a canto.
Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,
Tanta constelação pela planície azul!
Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto,
Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto
Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!

Noites de outrora!... Enquanto a bandeira dormia
Exausta, e áspero o vento em derredor zunia,
E a voz do noitibó soava como um agouro,
- Quantas vezes Fernão, do cabeço de um monte,
Via lenta subir do fundo do horizonte
A clara procissão dessas bandeiras de ouro!

Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens
Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!
Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus
Ressoantes de amor! outonos benfeitores!
Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!
Fernão Dias Pais Leme espera a morte... Adeus!

O Sertanista ousado agoniza, sozinho.
Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;
E com a roupa de couro em farrapos, deitado,
Com a garganta afogada em uivos, ululante,
Entre os troncos da brenha hirsuta, - o Bandeirante
Jaz por terra, à feição de um tronco derribado...

E o delírio começa. A mio, que a febre agita,
Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,
Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chio:
Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,
Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,
Como para o enterrar dentro do coração.

Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso!
Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço
De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!
Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo,
Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,
Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!

E foi para morrer de cansaço e de fome,
Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,
Te dê uma oração e um punhado de cal,
- Que tantos corações calcaste sob os passos,
E na alma da mulher que te estendia os braços
Sem piedade lançaste um veneno mortal!

E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;
Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...
Mas, agora, um dano ilumina-lhe a face:
E essa face cavada e magra, que a tortura
Da fome e as privações maceraram, - fulgura,
Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse.
IV
Adoça-se-lhe o olhar, num fulgor indeciso:
Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...
- E adelgaça-se o véu das sombras. O luar
Abre no horror da noite uma verde clareira.
Como para abraçar a natureza inteira,
Fernão Dias Pais Leme estira os braços no ar.

Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;
Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;
E flores verdes no ar brandamente se movem;
Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;
Em esmeraldas flui a água verde do rio,
E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...


E é uma ressurreição! O corpo se levanta:
Nos olhos, já sem luz, a vida exsurge e canta!
E esse destroço humano, esse pouco de pó
Contra a destruição se aferra à vida, e luta,
E treme, e cresce, e brilha, e afia o ouvido, e escuta
A voz, que na solidão só ele escuta, - só:

"Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,
Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...
Que importa? dorme em paz, que o teu labor é findo!
Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,
Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,
As tuas povoações se estenderão fulgindo!

Quando do acampamento o bando peregrino
Saia, antemanhã, ao sabor do destino,
Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor,
- No cômoro de terra, em que teu pé poisara,
Os colmados de palha aprumavam-se, e clara
A luz de uma clareira espancava o arredor.

Nesse louco vagar, nessa marcha perdida,
Tu foste, como o sol, uma fonte de vida:
Cada passada tua era um caminho aberto!
Cada pouso mudado, uma nova conquista!
E enquanto ias, sonhando o teu sonho egoísta,
Teu pé, como o de um deus, fecundava o deserto!

Morre! tu viverás nas estradas que abriste!
Teu nome rolará no largo choro triste
Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!
Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares
Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares
Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!

Morre! germinarão as sagradas sementes
Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!
Hão de frutificar as fomes e as vigílias!
E um dia, povoada a terra em que te deitas,
Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,
Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,

Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,
No esto da multidão, no tumultuar das ruas,
No clamor do trabalho e nos hinos da paz!
E, subjugando o olvido, através das idades,
Violador de sertões, plantador de cidades,
Dentro do coração da Pátria viverás!"



Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.
Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,
Como um choro de prata algente o luar escorre.
E sereno, feliz, no maternal regaço
Da terra, sob a paz estrelada do espaço,
Fernão Dias Pais Leme os olhos cerra. E morre.

Olavo Bilac

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